Por que os EUA cortaram sua taxa de juros em resposta ao coronavírus

Fonte: BBC News Brasil, publicado em 04 de Maço de 2020


(GETTY IMAGES) Farmácia na Califórnia com aviso de que máscaras estão em falta; maioria dos mais de 90 casos de coronavírus nos EUA se concentra na costa oeste

 

As grandes economias do Ocidente têm colocado em marcha medidas para mitigar o impacto econômico do surto de novo coronavírus, à medida que o número de pessoas infectadas continua a avançar e desencadear quarentenas, fechamento de fábricas (sobretudo na China), rupturas em cadeias produtivas e restrições de viagens.

 

A medida mais recente foi tomada pelo Banco Central dos EUA (Federal Reserve, o Fed), que, em caráter emergencial, cortou nesta terça-feira (03/03) suas taxas básicas de juros em meio ponto percentual, para uma faixa entre 1% e 1,25%.

 

"O coronavírus traz riscos crescentes à atividade econômica. À luz desses riscos e em apoio aos objetivos de estabilidade de preços e máximo emprego, o comitê do Fed decidiu baixar a faixa da taxa (de juros) de fundos federais", afirmou a instituição em comunicado.

 

Cortes de juros costumam incentivar o consumo e, assim, a atividade econômica. Em reação à medida, bolsas nos EUA, na Europa e no Brasil subiram logo após a decisão, embora algumas tenham fechado em queda horas depois — diante da aparente percepção de que a redução nos juros não será suficiente para conter o impacto econômico do coronavírus.

 

A despeito disso, segundo o The New York Times, trata-se do maior corte pontual da taxa desde a crise financeira de 2008.

 

"A epidemia perturbou a atividade econômica em muitos países e desencadeou movimentos significativos dos mercados financeiros", afirmou em entrevista coletiva Jerome Powell, presidente do Fed.

 

"Estamos começando a ver os efeitos no turismo e na indústria de viagens. E ouvindo preocupações com indústrias que dependem da cadeia de suprimento global. A magnitude e a persistência dos efeitos gerais na economia, no entanto, permanecem incertos, e a situação continua fluida."


Jerome Powell(AFP) Jerome Powell, presidente do Fed; entidade cortou os juros em reação ao coronavírus

 

Os EUA registraram, até agora, sete mortes e mais de 90 casos do coronavírus, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs). Nova York registrou seu segundo caso nesta terça, mas a maioria dos pacientes se concentra na Costa Oeste do país — muitos eram passageiros do cruzeiro Diamond Princess, que ficou em quarentena no Japão.

 

Outros países fora da China, porém, vivem situação mais crítica. Na Itália, país com o maior número de mortes pelo novo coronavírus fora da China, são 79 mortes até agora, e cerca de 2,5 mil pessoas infectadas.

 

No Irã, há oficialmente 77 mortos pela epidemia e 2,3 mil casos confirmados.

 

A China, por sua vez, concentra 80 mil das 88 mil infecções globais pelo coronavírus, além de 2,9 mil mortes até segunda-feira (2/3).

 

O Brasil, por enquanto, tem dois casos confirmados da doença, sem registro de morte.

 

Projeções

 

Também nesta terça, os ministros das Finanças do G7 (que reúne Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e EUA) emitiram um comunicado conjunto dizendo que usarão "todas as ferramentas apropriadas" para conter o impacto econômico da epidemia, inclusive medidas fiscais.


Wuhan, na China, epicentro da doença(REUTERS) Wuhan, em foto desta segunda-feira: fato de China ser epicentro da doença impactou diversas cadeias de suprimento globais

 

Embora o comunicado tenha, segundo a agência Reuters, decepcionado investidores — que esperavam anúncios mais concretos do G7 —, ele evidencia a preocupação com o impacto do coronavírus na economia global.

 

Antes, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse que o organismo "está pronto para tomar medidas" de contenção dos efeitos econômicos da epidemia, uma semana após dizer que ainda era cedo para estimar os riscos.

 

Na segunda-feira, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) advertiu para o risco de a epidemia procovar um efeito recessivo na economia. Sua previsão para o PIB (produto interno bruto) do mundo foi reduzida para 2,4%, índice mais baixo desde 2009, ano seguinte ao início da mais recente crise financeira global.

 

Caso o surto não seja controlado nos próximos meses, a entidade prevê um índice ainda menor, de 1,5%.

 

A Itália, país europeu mais afetado pela epidemia até agora, anunciou que vai injetar 3,6 bilhões de euros (R$ 18 bi) na sua economia, com aumento no crédito para empresas, cortes de impostos e investimentos em seu sistema de saúde, além de pedir autorização para a União Europeia para aumentar seu déficit orçamentário (ou seja, gastar mais do que arrecada) neste ano.

 

Os impactos nas bolsas e nas economias decorre, em parte, das incertezas em torno do surto: até agora não se sabe por quanto tempo e como o vírus irá atrapalhar a atividade das pessoas, das empresas e das economias.

 

Além disso, o fato de o epicentro do coronavírus ser a China — maior exportador e importador mundial — afeta cadeias produtivas no mundo inteiro. No Brasil, uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) com 50 empresas e divulgada no dia 21 de fevereiro apontou que 57% das entrevistadas já apresentavam problemas no recebimento de materiais, componentes e insumos provenientes da China, mais do que na pesquisa anterior, feita duas semanas antes.

 

Em meio aos temores de contágio, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou, nesta terça, que sua reunião com o Banco Mundial agendada para a primavera no Hemisfério Norte (outono no Brasil) será realizada virtualmente, de modo a "garantir a saúde e a segurança dos participantes e da equipe".