Dilma vai a Bruxelas em meio a expectativa sobre acordo Mercosul-UE

Fonte: BBC Brasil, publicado em 14 de Fevereiro de 2014


Márcia Bizzotto

De Bruxelas para a BBC Brasil

 

O Palácio do Planalto confirmou nesta sexta-feira que a presidente Dilma Rousseff deverá participar, no dia 24, de uma reunião de cúpula entre o Brasil e a União Europeia (UE) em Bruxelas, eliminando especulações anteriores de que o encontro seria cancelado.

 

A confirmação da participação da presidente no encontro, revelada por Dilma em um discurso feito em Manaus, contraria o que havia sido anunciado anteriormente tanto por um porta-voz da Presidência da Comissão Europeia quanto pela organização Business Europe, equivalente na Europa à Confederação Nacional da Indústria (CNI) brasileira.

 

Empresários europeus haviam inclusive planejado enviar, na próxima semana, uma carta à União Europeia criticando a suspensão da cúpula, alertando sobre o impacto da decisão nas relações comerciais entre os dois sócios estratégicos.

 

O encontro - que ocorre no momento em que UE e Mercosul se preparam para trocar propostas para o estabelecimento de um acordo bilaterial de livre comércio - deve ocorrer após a ida da presidente ao Vaticano, no próximo fim de semana, onde Dilma irá acompanhar a ordenação como cardeal do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta.


Liberalização

 

“Esse evento é uma oportunidade para que os empresários dos dois lados apresentem suas prioridades para facilitar investimentos e melhorar as relações", disse à BBC Brasil Eleonora Catella, conselheira da Business Europe para tratados de livre comércio e o Mercosul.

 

Os empresários europeus esperam que a reunião entre Dilma e as maiores autoridades europeias permita uma aproximação de posições com respeito ao acordo comercial que UE e Mercosul negociam há anos.

 

A Business Europe que que a Comissão Europeia "acelere a troca de ofertas de liberalização com o Mercosul para avançar nas negociações", explicou Catella.

 

O intercâmbio estava previsto inicialmente para dezembro, mas foi adiado repetidas vezes e a expectativa agora é de que ocorra até o final de março.

 

O acordo bilateral criaria um mercado livre de 750 milhões de pessoas e um comércio anual de cerca de US$ 130 bilhões (R$ 315 bilhões).

 

Pesguntada sobre a recente decisão da União Europeia de apresentar uma queixa contra o Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio), Catella – que indicara que a possível suspensão da cúpula "evidenciaria que as relações da UE com o Mercosul continuam difíceis" – ressaltou que "reuniões bilaterais de alto nível servem para buscar soluções amigáveis a esse tipo de questões".

 

"A UE tem várias disputas com os Estados Unidos na OMC e isso não os impediu de iniciar negociações para um tratado de livre comércio", ponderou a conselheira.


Acordo aéreo

 

A cúpula bilateral deve ter a assinatura de um acordo para a abertura mútua dos mercados europeu e brasileiro de transportes aéreos.

 

Bruxelas tem pressa em concluir essas negociações para aproveitar as oportunidades oferecidas pela realização da Copa do Mundo e da Olimpíada de 2016 no Brasil.

 

Se o calendário for cumprido, o pacto aumentará o tráfico aéreo entre o país e o velho continente em 335 mil passageiros só no primeiro ano de sua entrada em vigor e gerará US$ 630 milhões anuais em benefícios, segundo as estimativas europeias.

 

Outro acordo sendo preparado diz respeito à construção de um cabo submarino de fibra óptica entre o Brasil e a UE, projeto desenhado para reduzir em até 15% os custos de transmissão de dados digitais entre os dois sócios.

 

Dilma e os líderes europeus devem analisar as possibilidades para completar o financiamento da obra, avaliada em 245 milhões de euros.

 

O Banco Europeu de Investimentos (BEI) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social brasileiro (BNDES) prometeram contribuir com 100 milhões de euros cada, mas falta encontrar investidores para cobrir os 45 milhões restantes.