A indústria rural chinesa



 

A INDÚSTRIA RURAL CHINESA

Pedro Sisnando Leite*

A Indústria de Base

A industrialização rural é um assunto de muito interesse no Nordeste do Brasil em virtude das possibilidades que essa política pode oferecer para o aproveitamento de matérias-primas e a criação de emprego no interior. O Banco do Nordeste realizou muitos estudos a esse respeito e eu tive oportunidade de participar dessas pesquisas quando era técnico em desenvolvimento econômico do Escritório Técnico de Estudos Econômicos dessa Instituição.

Nesse particular, há muitas referências à experiência da China, especialmente a partir de 1979. David S. Landes, aliás, afirma em seu livro sobre a Riqueza e a Pobreza das Nações (1998) “Quem quiser entender a história econômica mundial deve estudar a China, a mais precoce e a mais bem sucedida de todas as nações fomentadoras do desenvolvimento”.

Atualmente os chineses fabricam navios, aviões automóveis e equipamentos industriais de última geração. A taxa de crescimento do setor tem sido em termos reais de 10% a 11% ao ano. Há vinte e um complexos siderúrgicos na China. A indústria mecânico-eletrônica é uma das maiores indústria básicos do país. A indústria elétrica, segundo a capacidade instalada, é a terceira do mundo. Outro ramo industrial de relevo é o têxtil, com fiação e tecelagens, sendo atualmente os tecidos e vestuários os líderes na exportação da China. A chamada indústria ligeira de bens de consumo ocupa uma posição de destaque na manufatura para o consumo interno e exportação para mais de 110 países.

A Interiorização do Parque Fabril

Uma experiência de grande significado no desenvolvimento do interior das áreas rurais da China são as denominadas empresas de comarcas e vilas. A partir de 1980, esses empreendimentos têm crescido impetuosamente, tornando-se numa força da economia nacional chinesa. O seu campo de ação compreende a indústria rural, a própria agricultura, o transporte, a construção e o comércio de alimentos. Essas empresas fabricam produtos destinados à produção agrícola, artigos de primeira necessidade, alimentos manufaturados, artigos da indústria ligeira ou de bens de consumo de modo geral.

Devido a essa política de desenvolvimento descentralizado das empresas desse tipo, os trabalhadores rurais excedentes e seus familiares deslocam-se das tarefas da terra sem se afastarem do âmbito da comarca em que habitam, sem pressão para as emigrações descontroladas que atualmente ocorrem nos países subdesenvolvidos do ocidente.

A necessidade de realizar a industrialização rural sempre esteve presente nos planos e pressupostos políticos do desenvolvimento chinês. Sempre houve o entendimento de que a grande proporção da população no quadro rural, que ainda hoje é de 65%, necessitava de estratégias especiais para aumentar a taxa de crescimento da renda através de novas alternativas de trabalho no próprio quadro rural. Ou seja, a promoção do setor agrícola isoladamente não tem sido capaz de obter uma redução significativa da pobreza, pois há necessidade da criação de emprego produtivo incapaz de ser proporcionado por uma atividade por natureza liberadora de mão de obra como é a atividade agrícola.

Devido às limitações do mercado interno rural, o setor exportador da economia rural é outro elemento muito importante. Mas as exportações da economia rural compreendem principalmente matérias-primas, produtos semi-elaborados e industrializados com alto valor adicionado. A experiência dos países desenvolvidos, de fato, demonstra que a indústria é à base do crescimento econômico acelerado.

Em decorrência disso, a industrialização rural é considerada essencial para uma política de crescimento econômico rápido e redução da pobreza. Essa atividade pode maximizar o uso dos recursos locais e pode adotar tecnologias mais simples e baratas.

A experiência chinesa, certamente, tem características próprias fundada nas raízes de seu passado de planejamento central e em sua busca de transição para uma economia de mercado. Uma particularidade notória da industrialização rural chinesa é a modalidade de estabelecimentos pequenos, trabalho intensivo e firmas com base endógena. Um aspecto proeminente da baixa concentração da renda é assinalado pelo coeficiente de Gini de 0,20 (excepcional) que pode ser atribuído a uma longa história da era do planejamento central.

As lições da Experiência Chinesa

O sucesso da industrialização rural na China deve-se a vários fatores. Em primeiro lugar, destaca-se o esforço para que o estabelecimento das indústrias rurais fosse realizado de modo integrado com as melhorias de outras atividades no meio rural. Nesse particular, destacam-se a construção de infraestrutura, treinamento, desenvolvimento da ciência e tecnologia etc. Na estratégia setorial, a ênfase é na escolha de produtos apropriados, qualidade e desenho de acordo com as necessidades dos mercados locais. Vale destacar, que essa orientação é muito semelhante ao enfoque japonês no momento do seu “take-off” do desenvolvimento industrial voltado para as áreas rurais, conforme tive oportunidade de conhecer em uma viagem de estudo àquele país, na década de 70.

Ao mesmo tempo, as tecnologias dos produtos artesanais e bens de consumo foram melhorados. Essa estratégia inclui as ligações das atividades industriais com os efeitos para frente e para trás, segundo uma moderna relação produtiva de interligações das atividades, segundo propõe o famoso economista Albert Hirshman (A estratégia do desenvolvimento econômico, 1964). A promoção da indústria chinesa de pequena escala não é feita às expensas ou em competição com a média e a grande indústria, mas de acordo com a adequação da localização. A preocupação principal é com a estrutura equilibrada das atividades industriais.

Segundo os estudos de Sigurdson (1979), as estratégias utilizadas pela China não podem ser aplicadas plenamente em outros países subdesenvolvidos de economia capitalista. De qualquer modo, a experiência chinesa de industrialização rural mostra o que é necessário para o êxito de um programa com essa finalidade. A começar pela adoção de uma forte política de ajuda para prover tecnologia e técnicos para atuarem nas áreas rurais.

A concepção principal da política chinesa, entretanto, é válida para os demais países subdesenvolvidos, e para regiões como o Nordeste do Brasil, para reduzir o hiato de renda e bem-estar dos habitantes do setor rural e das cidades por meio do uso de tecnologia e do investimento nas empresas rurais.

O professor Sartay Aziz, do The Macmillan Institute, no seu livro Rural Development-Learning from China (1958), advoga que para um bem sucedido programa de industrialização rural são necessários vários pré-requisitos. Esse autor apresenta cinco elementos chave com essa finalidade: a) Uma equitativa distribuição da terra e de outros recursos; b) Organização da população rural para o trabalho cooperativo; c) Diversificação da atividade rural para assegurar o crescimento da produtividade social, mais oportunidades de emprego e elevação da renda; d) Gradual, mas ativa promoção da política de desenvolvimento social; e) Capacidade política e administrativa para ligar as comunidades rurais com o setor da economia geral e resolver os conflitos decorrentes. O básico desses elementos é fazer uso do excedente da mão de obra nas áreas rurais, que é o mais importante recurso potencial para o crescimento da produtividade

A conclusão que se tira sobre as lições da experiência chinesa é que há necessidade de adotar um conceito de desenvolvimento econômico contemplando uma harmonia das políticas econômicas e sociais, visando à igualdade de oportunidades e equitativa distribuição da renda. Assim, a China prioriza o mínimo de bem-estar da população e cria um senso de segurança e da identidade da população para os objetivos do desenvolvimento geral. E a industrialização rural, em suma, é um dos instrumentos para o alcance desses objetivos.

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    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.