O papel das famílias no desenvolvimento social



              O PAPEL DAS FAMÍLIAS NO DESENVOLVIMENTO SOCIAL

                          Pedro Sisnando Leite *

Uma Visão Perturbadora 

Nos últimos anos, vivemos no Brasil numa era de muitas contradições.  Com efeito, fala-se muito em superação da crise econômica mundial, na criação de emprego com carteira assinada, na redução da pobreza absoluta, na realização de grandes eventos esportivos mundiais e mesmo em reconhecimento mundial dos feitos dos nossos governantes. Olhando dessa perspectiva,  parece que tudo está bem .

Apesar dos progressos alcançados, entretanto, não há duvidas de que outras questões estão desafiando a sociedade brasileira e sem a superação das quais não se pode falar em bem-estar e felicidade, que é uma aspiração de todos os povos. A corrupção, a violência, a rejeição dos sentimentos de religiosidade e o desrespeito pela autoridade e a moral estão crescendo assustadoramente, a despeito dos esforços dos órgãos públicos em conter essa onda.

Eu mesmo ando assustado, por mim e por meus familiares e amigos. Há mais de um ano não vou a minha casa de praia, pois meus vizinhos de condomínio foram assaltados e ameaçados com armas e violência. Eu mesmo fui assaltado, recentemente, em frente do meu apartamento  em plena luz do dia, tendo em volta muitos amigos que nada puderam fazer, a não ser ficarem indignados e perplexos. Há cinquenta anos morro em Fortaleza e nunca tinha passado por situação similar.  

A vulgarização dos meios de comunicação social, transmitindo ensinamentos contrários à moral, à dignidade, solidariedade e o respeito, chegou a um ponto inadmissível, segundo os mais vulgares critérios de avaliação.

Conheci países atrasados na África onde ocorriam condições semelhantes a essas. Mas eu intimamente pensava que jamais tais coisas pudessem se manifestar no Brasil.  Não estou inventando nada! Estou falando a pura verdade.   Diante disso, há de se perguntar, quais são as causas que estão motivando todas essas disfunções sociais e morais?  Certamente não se têm respostas prontas a respeito. Mas sente-se a urgência de encontrar formas de enfrentamento de tão grande desafio. Muitos estão de acordo que a primeira coisa a fazer é focalizar as politicas num modelo de desenvolvimento integral do homem. Conforme uma  ordem  moral e social, entre política e  esfera econômica  e o setor civil para garantir a cada um segurança, a observância da justiça, do respeito aos direitos inspirados nos valores do desenvolvimento humano.

De minha parte, acredito que é possível unir economia e solidariedade em favor da dignidade humana. Evidentemente, para construir uma nova sociedade , é preciso educar essa mesma sociedade, segundo um novo modelo econômico a fim de que a economia esteja realmente a serviço de todos. Para que fique claro, estou falando de uma combinação entre o crescimento econômico e o progresso social; um desenvolvimento com equidade, estabilidade e sustentabilidade ecológica. Para o alcance desse ideal, a condição fundamental é a educação ou a reeducação de toda a sociedade. A começar pela educação não só numa escola de qualidade, mas principalmente na família. 

O Papel das Famílias  para um Novo Desenvolvimento 

A defesa da família no mundo atual é uma missão de todos os cristãos.  Como é fácil perceber, a família está no centro dos problemas econômicos, sociais e espirituais que estamos vivenciando na atualidade brasileira e em muitos outros países. Sobre o assunto, nos adverte o saudoso Papa João Paulo II na sua Carta às Famílias (1994): “Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta  por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história”.  Ao mesmo tempo, a família é o ambiente humano onde cada  um de nós poderá atuar para melhorá-la. De fato, estamos vivendo uma era de desagregação moral, de corrupção e violência diante da qual precisamos ajudar nossos familiares e às comunidades onde vivemos dessa onda negativista. Por isso mesmo, convido todos a fazerem uma reflexão conosco sobre o papel e a dignidade da família.

Neste horizonte, são preocupantes os sinais de desagregação de alguns valores  fundamentais que orientam a organização da unidade familiar contemporânea. Propaga-se  a concepção doutrinária  e prática  da independência  dos cônjuges entre si, e uma ambiguidade a cerca das relações de autoridade entre os pais e os filhos, que está corroendo o núcleo familiar. Vivemos num mundo com grande pressão dos meios de comunicação social, que negam o inestimável valor da indissolubilidade  e fidelidade matrimonial, como um dos valores mais preciosos dos casais do nosso tempo.

Infelizmente, muitos fiéis nem sempre hão sabido se manter imunes desses valores contrários à construção  de um autêntico humanismo familiar. A Bíblia e o Catecismo da Igreja Católica e os documentos  dos Santos Padres dão a base para uma reflexão sobre o papel da família em nossas vidas. O livro do Gênesis afirma que: “o homem deixará o pai e a mãe  para si unir à sua mulher , e os dois serão uma só carne” (Gn.2,24). O Filho de Deus fez-se homem e escolheu uma família: Maria e José. Ou seja, a família foi sempre considerada na história da humanidade como a primeira  e fundamental expressão  da natureza social do homem (Familiaris  consortio, João Paulo II).  A família é também uma comunidade de pessoas, a menor célula social; e como tal é uma instituição fundamental para a vida de cada sociedade.

Compreende-se, assim, a razão por que a Igreja  defende vigorosamente a identidade da família  e incita às instituições  competentes, que cuidam da política, bem como as organizações  internacionais, a não cederem à tentação de reduzirem  a dimensão social da família, respeitando suas convicções morais  e religiosas  (Catecismo da Igreja, 1993). O Estado, entretanto, não pode dispor arbitrariamente da família como se ela lhe pertencesse. Ou interferir nos aspectos fundamentais  que lhe dizem respeito, como propõe a ideologia do materialismo histórico. A missão do Estado democrático, contrariamente, é defender  e dignificar  as famílias  e respeitar os seus direitos essenciais, tutelar a liberdade de seus membros  e dotar as famílias mais pobres  de condições para que possam viver dignamente.

A família cristã é uma vocação de Deus e vivê-la de modo responsável é um serviço que presta ao próprio Divino (Humanae Vitae, Paulo VI). De fato,  não se pode viver a vida dignamente  se ela não se orientar para   uma forma estável de compromisso de amor, fé e piedade. Os membros da família, cada um segundo seu próprio dom, tem a graça e a responsabilidade de construir  a comunhão das pessoas, fazendo da família uma escola de humanidade mais completa e mais rica, como tem afirmado os Bispos Sinodais. Essa reflexão, mesmo que resumida, nos leva a conclusão de que é preciso  fazer realmente todo o esforço possível para que a família seja reconhecida  como sociedade primordial e soberana. Na verdade, a família é uma escola insubstituível no ensino da religião, da moral, do respeito ao próximo, na construção de  vínculos de solidariedade comunitária e amor à pátria.

Acredito que as causas originais  de muito dos problemas que afetam a estabilidade da sociedade atual, especialmente do Brasil,  estão ligados a essa questão. Assim, não é exagerado insistir que precisamos dar mais atenção à nossa família, que é a expressão fundamental da natureza social do homem e da vida cristã. Este artigo, aliás,  foi escrito em “memoriam” dos meus humildes pais que me ensinaram na pequena Cidade de Santana do Cariri o valor da integridade e da honestidade, que nunca esqueci.


*Pedro Sisnando Leite é  professor titular (aposentado) de economia da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico).



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.