O governo de Trump e a situação mundial



PEDRO JORGE RAMOS VIANNA

PROFESSOR TITULAR DA UFC. APOSENTADO

 

O mundo vê e sente atualmente os arroubos de um Presidente dos Estados Unidos. Por trás dessas atitudes tresloucadas, está a convicção de todo americano que os Estados Unidos são um benefício para o mundo.

 

Pode perguntar a qualquer americano se ele não acha que isso é a mais absoluta verdade. A resposta sempre será positiva.

 

Durante quatro anos vivi nos Estados Unidos. Notei que o americano médio, do povo, é completamente ignorante sobre o mundo fora de seu país.

 

Só para exemplificar conto um fato que aconteceu comigo. Um famoso professor de economia me perguntou se o Brasil era maior que o Texas. Quando eu respondi que tirante o Alaska, o Brasil era maior que o seu País, ele focou muito admirado.

 

Que tal examinarmos essa “verdade” americana.

 

É fato que desde sua independência os Estados Unidos começaram a ser um país rico e cada vez mais poderoso.

 

Entretanto, tal poderio se intensificou com a II Grande Guerra.

 

Estando longe do palco da guerra ele pôde concentrar seus esforços na agricultura e na indústria, principalmente, a bélica.

 

Assim, ele passou a ser o fornecedor quase solitário desses bens.

 

Os países Aliados que não ele, passaram a ser devedores daquele País.

 

Quando, então, os Países Aliados resolveram reviver a LIGA DAS NAÇÕES, o Presidente dos Estados Unidos arquitetou a criação  de uma instituição multinacional, diferente da Liga.

 

Essa nova Instituição  foi praticamente instituída pelo Presidente dos Estados Unidos. De fato, já durante a Segunda Guerra,  Franklin D. Roosevelt, presidente dos Estados Unidos começou a discutir a criação de uma agência que sucederia a Liga das Nações. Tal Instituição passou a ser chamada ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS.

 

Para tanto, foi elaborada  a Carta das Nações Unidas   em uma conferência, em abril–junho de 1945. A Carta foi assinada em São Francisco (USA) em 26 de junho de 1945, após o término da Conferência das Nações Unidas.

 

Mas concomitantemente com a preocupação de se preservar a paz, os Estados Unidos também estavam preocupados com a economia mundial.

 

Como ele tinha muitos devedores era fundamental que tais devedores começassem a sair do estado de destruição a que muitos estavam mergulhados. Este foi o motivo da criação do BIRD ou BANCO MUNDIAL. Também aqui vale chamar a atenção para o PLANO MARSHALL, destinado à reconstrução da Europa.

 

Por outro lado, como as transações internacionais que eram de grande interesse para aquele País estavam com problemas de conversão de moeda, pois o Padrão-Ouro deixara de existir, necessário se fazia a criação de uma instituição internacional para regular os movimentos financeiros internacionais. Este foi o “leit motiv” para a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

E aqui uma discussão mais aprofundada merece ser tentada. É o que se fará adiante.


O PADRÃO CÂMBIO-OURO E A CRIAÇÃO DO FMI

 

Apesar de desde 1931, praticamente, ter-se abolido a convertibilidade das moedas nacionais em ouro, este metal não deixou de ser um marco de referência para alguns sistemas monetários nacionais.

 

Assim, quando da reunião de cúpula das autoridades das principais Nações Aliadas, em 1944, visando à instituição de uma nova ordem econômica e política para o mundo, o ouro voltou à evidência como guarda de valor e ponto de referência para o novo sistema financeiro que se pretendia implantar.

 

A reunião que determinou a criação do FMI ocorreu no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods,  pequeno balneário de New Hampshire, USA, em julho de 1944, sepultou de vez o Padrão – Ouro, mas o novo sistema que daí surgiu não deixou de tomar esse metal como a unidade de valor monetário central do sistema.

 

Duas propostas foram colocadas na reunião: a proposta da delegação britânica defendida por John Maynard Keynes e a dos Estados Unidos, defendida por Harry Dexter White. A proposta de Lorde Keynes defendia a criação da International Clearing Union (ICU), uma entidade composta pelos bancos centrais dos países representados que ficariam com o compromisso de registrar e compensar todos os pagamentos internacionais a partir do “bankor”, a unidade monetária a ser criada com esta finalidade.

 

A proposta de Harry White mantinha o ouro como meio de pagamento internacional.

 

Mas, apenas o dólar teria seu valor diretamente fixado em ouro. Os demais países fixariam o valor de suas moedas a partir do dólar e manteria a paridade fixa, o que deixava o dólar numa posição singular no novo arranjo.

 

Portanto, do Acordo de Bretton Woods foi que nasceu o sistema que passou a se chamar de Padrão Câmbio – Ouro. E, também, a criação do Fundo Monetário Internacional.

 

O Padrão Câmbio-Ouro permite a troca da moeda nacional em “notas de câmbio” de algum país que mantenha uma determinada relação unidade monetária nacional–ouro. Essas “notas de câmbio” são, na realidade, algumas moedas fortes, ditas “conversíveis” e que passam a se constituir meio de troca nas relações internacionais e servem como reservas monetárias para os sistemas monetários nacionais.

 

Infelizmente, da reunião de Bretton Woods, o dólar emergiu como meio de troca por excelência, acompanhado de perto pela libra e pelo franco francês. Essas moedas fortes, necessariamente deveriam ter uma relação fixa com o ouro.

 

O dólar, por exemplo, foi definido, em 1944, como valendo grãos de ouro com 0,9 de pureza ou o equivalente a 13,714 grãos de ouro puro . Tendo em vista que a onça–troy contém 480 grãos de ouro (28,363 gramas), estabeleceu-se  que o valor de paridade ouro–dólar seria 480/13,714 ou US$ 35.00 por onça – troy.

 

Portanto, o primeiro valor do dólar em termos de ouro foi US$35.00 por onça-troy.

 

As outras moedas conversíveis também tiveram estabelecidas suas paridades com o ouro (ou com o dólar).

 

Na realidade, é bom frisar, este preço da onça de ouro já vinha sendo praticado no mercado internacional desde fevereiro de 1934.

 

O novo sistema  que surgiu em 1944  tentava realinhar, dentro de determinados condicionantes, as transações econômico–financeiras entre os países. Tal sistema apresentava as seguintes  características:

 

1. ele é uma evolução quanto ao Padrão–Ouro, mas difere daquele, basicamente, pelo fato de, sob este sistema, as reservas internacionais constituírem-se de ouro e de moedas conversíveis;

 

2. as moedas conversíveis manteriam uma relação fixa com o ouro;

 

3. as moedas conversíveis passaram a se constituir meio de troca e reserva de valor no sistema financeiro internacional;

 

4. um persistente movimento de ouro deveria ser permitido para ajustar a  oferta monetária de cada país, cuja moeda fosse conversível. Assim, a um aumento da oferta monetária deveria corresponder, na proporção previamente estabelecida, um aumento no estoque de ouro do país;

 

5. mesmo as moedas que não tinham uma relação direta com o ouro, poderiam tê-lo, bastando para isso que as reservas monetárias do país fossem representadas, no todo ou em parte, por moedas conversíveis;

 

6. estabelecidos os valores de paridade unidade monetária–ouro, ficavam automaticamente estabelecidas todas as taxas cambiais de paridade entre as moedas que adotassem a paridade moeda–ouro;

 

7. entretanto, somente os bancos centrais (ou tesouros) podiam trocar moeda conversível por ouro;

 

8. os países só podiam valorizar / desvalorizar suas moedas em até – 1% ou +1%, respectivamente.

 

Estas foram, portanto, as características do  novo sistema monetário internacional.

 

Ora, como os Estados Unidos à época tinha o maior estoque de ouro que qualquer outro país, isso determinava o dólar, praticamente, como a moeda internacional.

 

Assim, a teoria de White determinava, praticamente, o retorno às taxas de câmbio fixas.

 

Argumentava-se que a manutenção da relação moeda-ouro determinaria a estabilidade do sistema financeiro internacional.

 

Este foi o primeiro golpe daquele país na economia mundial.

 

Por que?


OS CALOTES DOS ESTADOS UNIDOS NO MUNDO

 

Ora sendo uma moeda aceita como meio de pagamento  pelos países  signatários do FMI, bastava que ele “rodasse a maquininha” para que as “verdinhas” pagassem suas compras internacionais.

 

Enquanto os países tinham que produzir bens, o  USA tinha apenas que imprimir as “verdinhas”. O mundo passava, assim, a financiar aquele País.

 

Mas não ficou só nisso. Por três vezes aquele País deu calote no mundo.

 

Como isto se deu?

 

A crença de que a relação ouro-moeda sempre seria fixa, muito cedo caiu por terra.

 

Tendo em vista que o sistema do Padrão Câmbio – Ouro nasceu sob a égide do dólar, ficou patente que o sistema financeiro internacional só funcionaria a contento na medida em que os outros países continuassem a confiar na liquidez do sistema econômico americano.

 

O mundo, em verdade, estava a reboque da política norte – americana e esta, como assinalaram os economistas  S. Lichtensztejn e M. Baer (Lichtensztejn e Baer, 1986) não se coadunava com os interesses dos outros países. De fato, dizem aqueles autores “no final da década de sessenta era evidente que a política norte – americana não conseguia conciliar os seus objetivos com os de outros países industrializados e, sim, que suas próprias empresas e bancos haviam começado a exercitar uma autonomia relativa em seus movimentos financeiros, como conseqüência do seu acentuado processo de internacionalização.” Ver Lichtensjtejn & Baer (1986 ,pág. 45).

 

De fato, a primeira grande crise do sistema de Bretton Woods eclodiu em 1968, quando a França retirou dos Estados Unidos seus depósitos em ouro.

 

Mas, logo, logo, ficou evidenciado que a hipótese de um mundo financeiramente estável ruiu por terra quando o Presidente Nixon em 15 de agosto de 1971 suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro.


ESTE FOI O PRIMEIRO GRANDE CALOTE DOS ESTADOS UNIDOS.

 

A segunda crise se evidenciou quando ficou claro que os Estados Unidos não tinham mais tanto ouro para manter a paridade inicial ouro-dolar. Assim, em 18 de dezembro de 1971, no chamado “Acordo Smithsoniano”, os Estados Unidos, com o “ Aprovo” do FMI, desvalorizou o dólar em relação ao ouro. De US$ 35.00 por onça – troy, passou-se  para US$ 38.00 por onça – troy. Neste mesmo  Acordo ficou estabelecido que as margens de desvalorização  / valorização que os países – membros podiam utilizar-se  sem consulta ao Fundo era de ± 2,25%.


NA REALIDADE ESTE FOI O SEGUNDO GRANDE CALOTE AMERICANO.

 

O “aprovo” do FMI é redundante haja vista que os Estados Unidos são o maior participante do FMI, com maior poder de voto e poder de veto. O FMI fazia (e faz) o que os Estados Unidos determinam.

 

Entretanto, essas medidas paliativas não foram suficientes para resolver a crise de liquidez internacional do começo dos anos setentas. Assim, novamente, os Estados Unidos desvalorizaram, em 12 de fevereiro de 1973, o dólar em relação ao ouro, desta feita para US$ 42,22 por onça – troy. As margens para valorização/desvalorização das taxas de câmbio foram aumentadas pelo FMI para o intervalo de ± 10,0%.


AQUI SE TEM O TERCEIRO GRANDE CALOTE DOS ESTADOS UNIDOS.

 

Para exemplificar como o mundo todo financia os Estados Unidos, é bastante verificar que aquele País é o maior devedor internacional e aquele que apresenta o maior déficit comercial a cada ano.

 

Em 2010, por exemplo, a dívida mundial era de US$59,1 trilhões. A dívida dos Estados Unidos era de US$14,4 trilhões. Ou seja, eles respondiam por 24,36% da dívida total mundial.

 

Em 2016, o déficit no Balanço Comercial americano era de US$502.3 bilhões.

 

E no que diz respeito ao sistema financeiro americano?

 

A crise de 2008 foi de responsabilidade do sistema financeiro americano e das autoridades monetária daquele país. O sistema financeiro por emitir “derivatives”  baseados em papéis podres; as Autoridades Monetárias  por não fiscalizarem os bancos americanos como deveriam.

 

De fato, após a recusa do Federal Reserve (banco central americano) em ajudar o banco  de investimento Lehman Brothers a sair da crise,  no dia 15 de setembro de 2008, este pediu concordata.

 

Como outros bancos americanos já vinham dando sinais de estarem em situação perigosa, o “fenômeno” Lehaman Brothers espalhou-se por todo o sistema bancário americano e via “efeito dominó” por todo os sistema bancário do mundo desenvolvido.

 

Desta forma, a crise que começou com o pedido de falência de um banco americano, estado de falência este motivado por políticas agressivas de crédito, emprestando dinheiro a quem não podia pagar, mas burlando este fato com a emissão de “derivatives” podres espalhou-se por quase todo o mundo.

 

Quanto custou tal crise para o mundo?

 

O efeito mais imediato foi a queda brusca nos valores dos intangíveis. Somente em intangíveis Sallaberry e Medeiros (Sallaberry e Medeiros, 2015) constatam que “A análise identificou a relação dos intangíveis ao longo do tempo e em momentos de crise financeira, sendo que, com esta crise, foi reduzido em 74%, uma perda superior a R$ 1,5 trilhões entre 2007 e 2008”. (Sallaberry e Medeiros, 2015, pág. 3).

 

Por outro lado, pela redução drástica de crédito, os setores produtivos também sofreram enormemente os efeitos de tal crise, o que determinou a diminuição do crescimento econômico de muitos países.

 

Mas o pior é que o mundo ainda corre o  risco de outras crises que poderão advir do sistema financeiro americano.

 

Isto por que apenas cinco mega bancos americanos (Bank of America,  Bank of New York Mellon, Citigroup, Goldman Sachs e JP Morgan Chase) controlam  US$7.749 trilhões dos “assets” financeiros da população mundial.

 

E somente os oito maiores bancos americanos (some-se aos cinco primeiros o Morgan Stanley, o State Street e o Wells Fargo) controlam US$10.219 trilhões dos US$33.329 trilhões existentes, ou seja, controlam 30,66 % dos “assets” financeiros mundiais.

 

Vale lembrar que quando o Lehman Brothers Holdings Inc quebrou, em outubro de 2008, ele tinha uma carteira de somente US$54.0 bilhões em investimentos.

 

Para terminar vou relembrar um fato ocorrido na relação Brasil-Estados Unidos.

 

Em 1964, o Governo Brasileiro adotou uma política de “captação de poupança externa” para compensar o fato de que o Brasil não apresentava poupança interna capaz de financiar a taxa de crescimento que se pretendia para o país, algo em torno de 10,0% ao ano.

 

Para tanto, iniciou-se no País a política  de endividamento interno.

 

Esta política, conforme o Prof. Pedro Vianna (Vianna, 1984) determinou um processo de endividamento galopante, bem maior que o necessário para fechar o famoso “hiato de recursos reais”.

 

Mas, o mais agravante é que o Brasil contratou esse financiamento a taxas de juros flutuantes. Desta forma, ficou o País a depender da política do FED.

 

A análise que efetuei em meu livro de Economia Internacional (Vianna, 2016), está provado que para uma divida  de US$ 150 bilhões, por exemplo, US$ 105 bilhões estão atrelados à flutuação da taxa de juros internacional. Isto significa dizer que se esta taxa aumentar  um ponto percentual, os custos da dívida imediatamente aumentarão US$ 1.05 bilhão.

 

Naquele trabalho mostrei que  que as despesas financeiras de 1997, representam quase 100 vezes o que o Brasil gastava nessa rubrica em 1964.


ESTE FOI O GRANDE CALOTE QUE OS ESTADOS

 

Portanto, não são os Estados Unidos que sustentam o mundo, mas o mundo é que sustenta os Estados Unidos.



BIBLIOGRAFIA


LICHTENSJTEJN, S. & BAER, MONICA; Fundo Monetário Internacional & Banco Mundial. Editora Brasiliense S.A. São Paulo, SP, 1986.


SALLABERRY, J. D. MEDEIROS, O. R. de; “Os efeitos da crise financeira de 2008 no valor das empresas e nos ativos intangíveis”. Revista Contemporânea de Contabilidade. USFC, vol. 12, N. 27, set/dez 2015.


VIANNA, P. J. RAMOS; “Política Externa Brasileira: Uma Análise Didática”. Revista Indústria e Produtividade. Coleção José Ermírio de Moraes, nº 7, 1984.


VIANNA, P. J. RAMOS; Economia Internacional. 2016. No prelo.



    Pedro Vianna


    Sócio fundador da Econometrix e da TPJ Economistas Associados, com 40 anos de experiência na área da Ciência Econômica. Foi Diretor do Sistema BEC/BANDECE. Foi chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste-ETENE, do BNB. Foi Vice-Presidente da Associação de Bancos de Desenvolvimento - ABDE. Foi Professor Titular em Ciência Econômica da Universidade Federal do Ceará. Foi Professor Pesquisador do Seminar Für Allgemeine Betriebswirtschaftslehre, Beschaffung und Produktpolitik, e do Institut Für Finanzwissenschaft, ambos da Universidade de Colônia (Alemanha). Especialista nas áreas de Economia Internacional e Ciência Tributária.