Grande muralha, muros e muretas



Pádua Ramos

 

Ensina a melhor psicologia que nada acontece fora do homem que não tenha ocorrido primeiro dentro dele. A grande muralha da China, com seus 7.000km de extensão, terá ocupado privilegiado espaço na mente dos imperadores chineses até objetivar-se nesse monumento talvez extravagante, pelo menos aos nossos olhos, nos dias de hoje.

 

O muro de Berlim foi construído como uma concepção antilibertária vicejante na alma ditatorial da liderança comunista oriental. Caiu de maduro, naquele clima político oxigenado por João Paulo II, sob a ação profilática das correntes de opinião do mundo livre, embora ele próprio, o mundo livre, ainda apresente suas intolerâncias: vide os humores do presidente Trump.

 

De fato, chega agora esse presidente, com seus esgares prepotentes, decidido a erguer um muro entre o México e os Estados Unidos.

 

Trata-se de figura aberrante, desarmônica com o perfil do homem típico norteamericano – com seu universalismo onipresente espalhado pelos quadrantes do mundo. Quem, da minha geração, não se lembra da providencial presença dos norteamericanos na II Guerra Mundial, com destaque no campo da cultura?  Dos filmes da época, como: “Como era verde meu vale”, “Em cada coração um pecado”, “Casablanca” e tantos outros, cujos fundos musicais os adolescentes de então saíamos por aí, sem lenço e sem documento, assobiando?... Tomie Dorsey, Gleen Müller, Doris Day, Frank Sinatra... A dimensão humanista transparecia. E mundializava-se.

 

É certo que depois viemos a conhecer a face imperialista da grande potência. Mas isso não está diretamente ligado à índole daquele povo, senão aos transnacionais interesses dos trusts e dos cartéis, – todos eles: apátridas. Por isso, consciente ou inconscientemente, relacionamo-nos com aquela Nação em duas frentes: numa, temo-nos esforçado por criar barreiras econômicas defensivas – nossas muretas; e, noutra, usufruímos de bolsas de estudos nas universidades norteamericanas, para importarmos know how em praticamente todas as frentes do saber, assistimos aos filmes que ali se produzem, fazemo-nos presentes à Disney, a New York, a outros locais daquele País, como turistas.

 

Não haveria como falar em muro ao falarmos sobre os Estados Unidos. Por isso é que estamos surpresos, na verdade estarrecidos, com o anúncio do novo Presidente de que erguerá um muro separando aquele País, do México. Tratar-se-á do muro da intolerância, preexistente na alma de Trump. Não das muretas que às vezes elevamos dentro de nós nas oportunidades de pequenos desencontros com os que nos são próximos. E que logo-logo desfazemos ao se restabelecer a atmosfera da fraternidade. Nossas muretas interiores quase sempre são de barro mole: desmancham-se sob o efeito das primeiras águas de inverno nordestino, essa chuvarada de confraternização que nos irmana a todos.

 

Fraternidade, – eis a palavra-chave.



    Pádua Ramos


    Administrador e Advogado. Foi Técnico em Desenvolvimento Econômico do BNB, Secretário do Planejamento dos Estados do Ceará e do Piauí, Presidente dos bancos dos Estados do Ceará e do Piauí, Superintendente-Adjunto da SUDENE e Pró-Reitor de Planejamento da UECE.