O papel das ideologias na crise brasileira



Pedro Sisnando Leite

    Prof. de economia da UFC e Vice-Presidente da Academia de Ciências Sociais do Ceará.

 

Não é difícil analisar as motivações que estão levando ao desmoronamento da economia e às turbulências políticas e sociais do Brasil atual. Menos fácil de explicar é saber qual é a fonte inspiradora das atitudes e procedimentos dos governantes. No entanto, costuma-se dizer que as ideias podem transformar o mundo. Os economistas acrescentam a essa questão a importância da força poderosa das ideologias que moram nas cabeças ou nos corações dos líderes e políticos. Isso para não falar em religião, que é outro elemento espiritual determinante no comportamento humano. Nesse particular, são exemplos das influências que causaram na sociedade mundial as concepções e teorias elaboradas por Karl Marx, Adam Smith, Max Weber etc. Pela história da ciência politica é fácil verificar-se que as ideologias, em particular, têm ocupado uma parte determinante da vida dos povos.

 

Nas últimas décadas, por exemplo, os países de todo mundo estão revelando opção cada vez mais nítida pela economia de mercado, em substituição ao fracassado “planejamento socialista”. No caso do Brasil, então, há de se perguntar, qual foi a ideologia política que formatou as ações governamentais. Será que a crise atual tem alguma relação com esse fato? Alguns colegas da academia dizem que o Brasil tem sua politica econômica fundamentada no “Capitalismo de Estado”. Outros dizem que, de algum tempo para cá, o que predominava no Brasil era um modelo populista de preservação do poder. Daí, afirmam, provém os tentáculos da corrupção e desregramento ético. Aliás, tornou-se comum ver-se o uso dessas expressões pelos parlamentares na Câmara Federal e no Senado.

 

Vejamos o que poderíamos deduzir das várias fontes de estudos sobre esses fatores invisíveis que estiveram, certamente, condicionando as ações dos dirigentes máximos do País. Pois são eles que marcam a vida de toda a nação. Apesar de controvérsias, predomina no Brasil a ideia de que a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são socialistas bolivarianos, ou de um novo socialismo do século XXI. Há também quem acredite que eles são comunistas castristas e sonhavam introduzir essas filosofias no Brasil. Nesse particular eles são sinceros e firmes. Parece legitimo sabermos o que inspiravam os nossos governantes para pensarem assim. Não acham? Mas muitas pessoas do meu relacionamento perguntam o que esses termos realmente significam? Segundo minhas pesquisas, oito em dez pessoas se atrapalham quando vão externar suas opiniões a respeito disso, mesmo nos meios intelectuais mais esclarecidos.

 

No entanto, muitos estudos apontam as respostas para essas terminologias. De antemão, é bom lembrar que com a queda do muro de Berlim, em 1989, levando a um colapso do comunismo da URSS e do socialismo prático no Leste Europeu, a esquerda mundial caiu num buraco negro. Após algum tempo desse desmoronamento do socialismo prático, os seguidores dessa herança ideológica buscaram uma nova fonte de doutrinas de inspiração marxista-leninista para enquadrar uma nova revolução socialista numa base chamada “democrática”. A proposta de luta de classes, e de extinção da propriedade privada, foi substituída pelo “capitalismo de estado”, que é um disfarce do socialismo totalitário convencional.

 

Essa mudança de estratégia dos movimentos de esquerda da corrente latino-americana para o alcance do socialismo sem revolução está arquitetada e esquematizada no manual do fundador do partido comunista italiano: Antônio Gramsci. Na verdade, esse filósofo é uma referência essencial do pensamento da esquerda latina americana das últimas décadas. Segundo os analistas dessa doutrina, Gramsci promoveu o casamento dos pensamentos de Marx com os de Maquiavel, criando um novo sistema comunista chamado de “democrático”, pois ele dispensa a luta de classes. É a tomada do poder pela desmoralização do capitalismo ou da economia de mercado, como está sendo feito em alguns países latino americanos com a liderança da Venezuela e o respaldo cubano.

 

Para Gramsci , mais do que para Maquiavel e Marx, os fins justificam os meios e qualquer ato é legítimo a partir de sua utilidade para a tomada ou manutenção do poder. Por exemplo, para esses pensadores, o Mensalão e o Lava-Jato são ideologicamente “éticos”. As entrevistas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas últimas semanas, comprovam essa assertiva. Daí porque os responsáveis por essas ações estão tranquilos com suas consciências e, ironicamente, esperam o beneplácito da justiça e a aclamação do povo.

 

Outro pensamento corriqueiro entre os adeptos do novo socialismo gramsciano, proposto pelo comunista italiano, é quanto ao conceito de “verdade”, que segundo eles é um sentimento “burguês” contagioso. Assim, na revolução silenciosa desse movimento, não há lugar para a distinção burguesa entre verdade e mentira. Quando necessário, a mentira deve ser repetida tantas vezes quanto seja necessária para parecer verdade.

 

Gramsci também exige dos seus seguidores que toda a atividade cultural e científica se reduza a mera propaganda política, mais ou menos disfarçada. A estratégia é “sutilmente” dominar a burguesia através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas, empresas estatais e dos meios de comunicação. Como todos podem deduzir, esse plano de dominação do poder político e social está em plena execução na América Latina e, possivelmente, no Brasil. Será que há alguma dúvida sobre isso?

 

As estratégias do Gramscismo para o domínio do judiciário e das formas armadas nos países capitalistas são inacreditáveis, mas estão sendo usadas sorrateiramente pelos países bolivarianos da América Latina. No Brasil, por exemplo, o Comandante das Forças Armadas era um líder do Partido Comunista do Brasil e, segundo as mídias, ele se arvora de ser um grande admirador do cruel ditador comunista Josef Stalin. De todas as ações de dominação, sem revolução das massas trabalhadoras, como propunha Lênin, consta do manual revolucionário do comunista italiano Antônio Gramsci.

 

As mais imperceptíveis e eficazes estratégias para a dominação de um país são através da educação, das escolas. Vejam o que está no manual desse guru do socialismo brasileiro: Construir uma massa de manobra, usando as universidades, a mídia e as editoras. Usar professores da nova massa de manobra no ensino básico (fundamental e médio). Mudar valores e princípios ético-morais para alterar a estrutura familiar. Controlar escolas e universidades particulares através de sindicatos e oferecimento de bolsas para financiar o ensino privado sem fiscalização, em compensação pelo apoio desse setor às orientações do governo. Tudo isso, como proclama Antônio Cramsci, “Para enfraquecer a vontade nacional” e a tomada final do poder para a instalação da nova democracia monocrática, ou o “Capitalismo de Estado” que estava em curso no Brasil. Mas essa estratégia política ruiu como o muro de Berlim, para o bem do Brasil.



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.