Projetos estratégicos



 

PROJETOS ESTRATÉGICOS

Marcos C. Holanda

Prof. Titular DEA – UFC

marcosholanda2@gmail.com

Em artigos anteriores observamos que os projetos da Siderúrgica e Refinaria são importantes, mas que não são suficientes para promover o desenvolvimento sustentável do estado.

Por outro lado defendemos a idéia que nosso desenvolvimento precisa ser “ancorado” em projetos com maior capacidade de ligação com a economia local, com maior capacidade de gerar empregos de qualidade, com menores impactos ambientais e mais conectados com a economia do século XXI.

Nosso intuito nesse breve artigo é apresentar em mais detalhes três projetos que achamos serem estratégicos para o desenvolvimento do Ceará: a Zona Econômica Especial do Pecém, o Instituto de Tecnologia do Ceará e o Parque de Serviços de Fortaleza.

O Porto do Pecém é um equipamento que sem dúvidas agregou uma vantagem comparativa valiosíssima ao Ceará. A razão é simples: em uma economia cada vez mais globalizada e cada vez mais exigente em termos de eficiência, a produção econômica se localiza onde os custos são menores. Produzir em larga escala na proximidade de portos competitivos e próximos de grandes mercados consumidores passou a ser uma tendência irreversível. Nesse contexto o porto do Pecém se mostra altamente competitivo.

Hoje o porto e o Complexo Portuário e Industrial do Pecém já são uma realidade. O que defendemos é que o Pecém seja trabalhado não na visão de um complexo industrial e sim na visão mais ampla de um complexo econômico. Nesse sentido propomos a criação da Zona Econômica Especial do Pecém (ZEEP).

O conceito de ZEE, que tem na China seu principal exemplo de sucesso, é relativamente simples e óbvio, mas de execução não trivial. Na ZEE temos um espaço geográfico onde a economia é trabalhada em todas as suas dimensões, agropecuária, indústria e serviços, e onde a lógica de trabalho do governo é tornar esse espaço o mais atrativo possível para a localização de empresas e pessoas. Ou seja, na ZEE é mais fácil fazer negócio e mais agradável se viver.

O papel principal do governo na ZEE não é o de escolher os projetos que lá vão se localizar e sim de sinalizar para o empresário que ali existe infraestrutura e mão de obra de qualidade, centros urbanos com qualidade de vida, menos impostos, menos burocracia, melhores serviços públicos.

É obvio que a criação de uma ZEE em um país autoritário como a China é mais fácil do que em uma democracia federativa como o Brasil. Mesmo assim entendemos que é possível sim uma pactuação entre estado e municípios em torno do Pecém para a construção de um ambiente institucional favorável e para a elaboração de um plano estratégico de médio prazo dentro do conceito de tais zonas.

Um segundo projeto estratégico seria baseado na proposta de consolidar um pólo de educação focado na inovação tecnológica. A educação hoje não só é o principal fator de produção das economias modernas como também uma grande indústria geradora de renda e empregos. Os Estados Unidos, por exemplo, tem hoje como um de seus principais item de comércio internacional a “exportação” de serviços de educação a partir de suas grandes universidades.

O Ceará tem tradição de vanguarda em educação possuindo hoje uma extensa rede de escolas de nível médio e superior, publico e privada, de alto nível. No ensino superior temos a UFC e a UNIFOR que são lideres no Nordeste. No ensino profissionalizante somos pioneiros com os CVT’s e CENTEC’s. No ensino médio temos uma particularidade e somos o estado, proporcionalmente, campeão do Brasil no envio de alunos para os dois melhores centros de ensino tecnológico do país que são o ITA e o IME.

Aqui a proposta é criar um pólo de educação tecnológica a partir da criação do Instituto de Tecnologia do Ceará (ITC), o “ITA Cearense”. O ITC nasceria com uma missão simples e desafiadora: atrair de volta os Cearenses brilhantes que foram estudar em centros avançados no Brasil e no mundo. Em vez de continuar exportando talentos passaríamos a importar. Para tal precisaríamos oferecer infraestrutura adequada, salários competitivos e governança institucional moderna baseada no mérito.

Os países e cidades mais competitivos do mundo estão fazendo isso. Recentemente New York abriu um processo competitivo para selecionar uma universidade de renome para instalar um Centro de Tecnologia aplicada na cidade, doando uma área nobre para tal.

Um economista americano disse uma vez que a melhor maneira de se construir uma grande cidade é construir uma grande universidade e esperar 200 anos. Certamente não podemos esperar tanto, mas a mensagem é super válida.

O terceiro projeto se baseia no fato de as cidades serem hoje percebidas como uma vantagem comparativa importante na geração de riqueza. Nas economias modernas o setor de serviços concentra sua parte mais dinâmica e com maior potencial de crescimento.

As cidades possibilitam a oferta mais barata de serviços públicos e ao mesmo tempo reduzem o custo de transação das pessoas em ter seu acesso. Elas também aumentam a capacidade das pessoas de trocarem idéias e de serem mais produtivas gerando mais externalidades positivas para a economia.

Uma tendência mundial cada vez mais forte é a transformação de cidades em “Hub de Serviços”. Nesse conceito a cidade se transforma em um pólo concentrador e distribuidor de serviços gerais ou específicos como financeiros, engenharia, tecnologia de informação, advocacia, propaganda e marketing, culturais e artísticos, etc.

Nesse caso o terceiro projeto estratégico é viabilizar Fortaleza como um Hub de Serviços a partir da criação do Parque de Serviços de Fortaleza na área onde hoje se localizam os terminais de tancagem e distribuição de combustíveis do Mucuripe. A transferência de tais terminais para o Pecém, que tem que acontecer de qualquer maneira, abriria um espaço urbano nobre que poderia ser transformado em um grande portal de serviços como são os casos da Cidade Digital no Recife, da Faria Lima em São Paulo, do Canary Wharf em Londres.

Se a cidade ofertar incentivos fiscais e infraestrutura de apoio e ambiente institucional favorável Fortaleza pode rapidamente se transformar em um pólo de serviços chave no Nordeste.

Os três projetos aqui apresentados certamente não esgotam nossas potencialidades, mas são projetos viáveis, financeiramente factíveis e alavancadores da economia local. Acima de tudo são projetos conectados com o mundo atual cada vez mais competitivo e cheio de oportunidades.

{jcomments on}

 



    Marcos Holanda


    Possui graduação em Economia pela Universidade de Fortaleza (1984), graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (1983), mestrado em Economia pela Fundação Getúlio Vargas - RJ (1987) e doutorado em Economia - University of Illinois (1993). Atualmente é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Professor Titular da Universidade Federal do Ceará. Foi fundador e primeiro Diretor Geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceara IPECE. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Balanço de Pagamentos; Finanças Internacionais, Finanças Públicas atuando principalmente nos seguintes temas: INflação, Taxa de Cambio, Desenvolvimento Econômico, Comércio Internacional e Economia do Setor Público.