Ainda o Bolsa Família



            Pádua Ramos*

Como recurso de exposição, as ideias aqui expostas passam pelos seguintes conceitos: “perspectiva histórica”, “sindérese” e “realinhamento de preços”. A perspectiva histórica nos ensina a ser mais compreensivos para com os que conduziram os fatos do passado e foram conduzidos por eles. Por exemplo, nossos tataravós mantinham escravos. Tamanha desumanidade sancionava-se pela cultura da época, que o historiador contempla de longe, meio que aceitando, via a atenuante da perspectiva histórica. “Naquele tempo... Naquele tempo as coisas eram assim”.

 

A sindérese nos diz, como sabemos, que a pessoa humana já nasce com certa noção ainda que não trabalhada do Bem e do Mal. Este fenômeno, cuja existência foi proclamada na Idade Média, confirmou-se em nossos dias por experiência realizada na Universidade de Yale com crianças ainda não influenciadas pela cultura praticada pelos adultos e pelos valores professados por eles.

 

Tenho para mim que a sindérese opera silenciosamente o interior da consciência, a ponto de aos poucos ir afrontando exitosamente a cultura sempre imperfeita de cada época. Terá sido ela, aliada a pressupostos humanísticos já presentes à civilização, o motor que fez de Castro Alves grande defensor dos escravos, cuja poética assumiu seu ponto culminante em “O Navio Negreiro”. Assim o verbo iluminado do grande tribuno que foi Joaquim Nabuco.  Assim as palavras de fogo de José do Patrocínio. Assim a irradiação de aurora da alma da Princesa Isabel, ao assinar a Lei Áurea.

 

Indo ao ponto. Quem, no futuro, contemplar em retrospecto as relações de trabalho de empregadas domésticas, de babás, de caseiros que prestam serviços em sítios, de alguns operários de algumas fábricas e de outros profissionais subordinados todos à classificação geral de executores de tarefas subalternas, – verá nessas relações de trabalho relações de escravatura: escravatura que nós, contemporâneos dela, assim não consideramos, porque nos falta a perspectiva histórica. Perspectiva histórica que, sobrevindo no futuro, poderá até perdoar, mas fará o diagnóstico da escravatura.

 

O Bolsa Família, ao oferecer assistência financeira modesta, abaixo, muito abaixo, do valor do salário mínimo, de todo modo propicia ao trabalhador ou trabalhadora a opção de libertar-se da escravatura. A opção de se descobrir como Pessoa. Como Gente. Que se deixa ficar em casa, quem sabe, ao balanço de rede de tucum a cismar a cisma de seu comovente reencontro consigo mesmo ou consigo mesma.

 

O Bolsa Família foi bem concebido, no sentido de que, ao tempo em que a assistência financeira é concedida, abrem-se alternativas de novas frentes de trabalho, como saídas dos assistidos e como caminho para que migrem para o sistema produtivo. Há os que preferem burlar o sistema e portanto merecem nossa reprovação. O que porém não explica a cruzada sacrossanta, e suspeita, dos que invectivam colericamente contra os pobres infelizmente desonestos, mas que contemplam indiferentes a burla (falsificação de notas fiscais e outras trapaças) por parte de uns tantos empresários (não por parte de todos) frente à cachoeira, verdadeira cachoeira, de incentivos fiscais municipais, estaduais e federais. Dois pesos, duas medidas. (Para quem eventualmente não saiba, “incentivo fiscal” é em suma dispensa de pagamento de imposto sob certas condições).

 

O Bolsa Família devolve ao trabalhador o senso da dignidade perdida. E lhe confere poder de transação. Agora, bem que ele poderá atender ao chamamento dos patrões, mas impondo, quem sabe, salários muito superiores aos de que antes usufruía. Impondo o realinhamento do preço (defasado, escandalosamente defasado) de seu trabalho. Daí aquela reação negativa das costureiras aprendizes que não aceitaram, depois de treinadas, empregar-se com a fruição do salário mínimo, segundo história que correu pela Internet em clima de admiração e de ignorância, sobretudo de ignorância. O realinhamento de salários consiste na mais legítima, na mais natural redistribuição de renda entre classes, dentro das regras do capitalismo honesto que quase todos almejamos. Realinhamento de salários agora conjugado com o realinhamento da consideração, segundo nova postura dos empregadores, no trato respeitoso com os que trabalham.

 

O Bolsa Família, enfim, devolve ao trabalhador o senso da dignidade perdida. Perdida e reencontrada.

 

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*Pádua Ramos é Administrador.



    Pádua Ramos


    Administrador e Advogado. Foi Técnico em Desenvolvimento Econômico do BNB, Secretário do Planejamento dos Estados do Ceará e do Piauí, Presidente dos bancos dos Estados do Ceará e do Piauí, Superintendente-Adjunto da SUDENE e Pró-Reitor de Planejamento da UECE.