Barulho na missa, missa do barulho



Pádua Ramos

Quem caminha pelas ruas e praças de Fortaleza faz imersão num mundo de luz e de sons: a luz de uma cidade banhada sol; e os sons de buzinas, os gritos de vendedores, o barulho amorfo dos transeuntes palmilhando espaços abertos. Nesse ambiente, o Eu interior encolhe-se pressionado de fora para dentro. Amesquinha-se. Avassala-se.

 

O mesmo acontece nas modernas festas de casamento e de aniversário, onde as bandas graduam o som no ponto máximo. Não se pode conversar senão aos berros com o vizinho de mesa.

 

Se esse caminhante buscasse o abrigo de uma Igreja, bem que poderia encontrar ali (pensaria ele) a paz silenciosa dentro da qual o Eu interior viesse a florescer, por não recalcado de fora para dentro, antes liberado, na proteção do silêncio místico da oração. À maneira de reintegração da personalidade despedaçada pelo mundo exterior. Mas, não. Na verdade, ledo engano.

 

Eis que os templos sagrados estão interiorizando o barulho – barulho na Missa, que se converte em Missa do Barulho. O fiel não encontra abrigo para a alma carente de oração, necessitada de dialogar com Deus. Os sacerdotes nem sempre se dão conta de que a Igreja deve buscar a santificação do mundanismo e não se deixar afetar pelas práticas do temporal que o caracterizam.

 

Tenho saído por aí para ver se descubro em Fortaleza Missas nas quais eu encontre, já não digo a música suave dos órgãos de antigamente, mas ao menos melodias sacras em decibéis apropriados para a meditação, para o cultivo da paz íntima. Mas a esmagadora maioria delas capitulou ao modismo do barulho.

 

Fazer o que?



    Pádua Ramos


    Administrador e Advogado. Foi Técnico em Desenvolvimento Econômico do BNB, Secretário do Planejamento dos Estados do Ceará e do Piauí, Presidente dos bancos dos Estados do Ceará e do Piauí, Superintendente-Adjunto da SUDENE e Pró-Reitor de Planejamento da UECE.