Entenda o imbroglio do possível calote da economia americana



PEDRO JORGE RAMOS VIANNA

Economista senior do Econometrix

Para entender o imbroglio que causaria uma moratória na dívida externa americana, devemos conhecer, primeiro, o tamanho dessa dívida, para entender porque os Estados Unidos se tornou o maior devedor externo do mundo; segundo, como o mercado financeiro internacional se comportaria face este fato.

Mas antes de conhecer o tamanho da dívida externa americana, é interessante saber como aquele País se tornou o maior centro financeiro do mundo.

Na realidade, tudo começou em 1944, quando da instituição da Organização das Nações Unidas, e seu braço financeiro, o Fundo Monetário Internacional.

À época, dois economistas se sobressaíram na disputa para a definição de uma “moeda internacional”. Como representante da Inglaterra, Lorde John Maynard Keynes advogava a criação do “bankor”, que seria uma moeda internacional, emitida pelo FMI. Por outro lado, como representante dos Estados Unidos, estava o economista do Departamento do Tesouro Americano, Harry Dexter White, que advogava o uso do dólar como “moeda internacional”.

A proposta de Lorde Keynes era a mais lógica. Mas na época a Inglaterra precisava de um empréstimo dos Estados Unidos. Este para conceder o empréstimo, “sugeriu” a mudança do representante inglês na Conferência. Resultado, a proposta White foi a vencedora.

Ora, sendo agora o dólar uma moeda que todos os países passaram a aceitar (pelo menos os signatários da Carta das Nações Unidas) e tendo os Estados Unidos emergidos da Guerra como a maior potência econômica da época, a hegemonia econômica daquele país era apenas questão de tempo: o mundo todo passou a financiar aquele País. Para ele era bastante emitir as “verdinhas” e comprar o que quisesse no exterior. Mas a emissão de moeda além da conta, sempre é inflacionária.

Assim, para financiar seus gastos cada vez maiores com a corrida armamentista e a promoção das guerras em que o País se envolveu, o Tesouro Americano passou a emitir Títulos, em escala cada vez maior. Esta prática permitia àquele País ter sempre déficit no Balanço de Pagamentos em Conta Corrente (algo em torno de US$100.0 bilhões/ano) e chegar ao patamar da dívida atual da ordem de US$14.0 trilhões.

Todo este contexto contribuiu para a “criação de riqueza do nada”, principalmente depois do surgimento dos famosos “derivativos”, papéis oriundos de outros papéis, sem nenhum “lastro” de bem físico, de riqueza tangível.

Aliás, esta prática de se criar moeda com valor de face diferente do valor do “lastro” vem desde os tempos da rainha egípcia Cleópatra VII (69 a.C. - 30 a.C.). Ela mandou cunhar moedas cujo valor de face (e todos eram obrigados a aceitar) era maior que o valor do minério nela embutido (o lastro). Desta forma a criação da “moeda papel” pelos idos do século XIV já era um velho artifício dos governantes.

Vale chamar a atenção que o movimento financeiro internacional movimentava anualmente algo em torno de US$242.3 trilhões (em 2009), enquanto o comércio de bens físicos se situava ao derredor de US$30.2 trilhões. Ou seja, a movimentação financeira internacional é oito vezes o valor do movimento internacional de mercadorias..

Voltando ao caso norte-americano, verificamos que a partir da crise de fins de 2008, a “economia criativa” financeira sofreu um tremendo susto e até agora não se recuperou. Daí nasceram os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha ou PIIGGS (os mesmos países anteriores mais a Grã-Bretanha) ou até STUPIDs (Espanha, Turquia, Portugal, Irlanda e Dubai) grupo de países que não conseguiram sair daquela crise e ameaçam levar o mercado financeiro internacional a mais uma crise. Embora os Estados Unidos não estejam incluídos nos acrónimos acima, sua economia também ainda não se recuperou de todo.

O problema, então, é que aquele PaÍs já não é visto como a fortaleza inexpugnável do capitalismo financeiro internacional (muito embora continue ainda no primeiro lugar no “ranking” de países para onde os capitais fluem). Portanto, a venda de títulos do Tesouro já não cobrem com facilidade os enormes déficits fiscais americanos. E nesta época de desemprego, há margem para cortes profundos de déficit público? Este é o impasse entre o Executivo e o Legislativo americano.

E se os Estados Unidos pedirem moratória, como ficará o mundo?

É interessante aqui relembrar as diversas moratórias por que passou o mundo: do Brasil, do México, da Rússia, da Argentina e mais algumas de somenos importância. O que aconteceu? Praticamente nada. O FMI à época podia bancar a crise, como também os credores.

O problema agora é o tamanho do devedor. Aquelas moratórias antes referidas envolviam alguns poucos bilhões de dólares, às vezes nem isso. Agora temos um devedor na casa dos trilhões de dólares. Somados a isso temos as situações dos PIIGS. Realmente, esta é a pior hora para uma moratória americana.

O que acontecerá, caso isso ocorra, com a economia internacional? Em princípio, a desconfiança dos investidores (especuladores) poderá frear os fluxos de capitais entre países e a rolagem de suas dívidas poderá ficar mais difícil. A esperança é que os investidores prefiram o risco ao ganho zero. Em segundo lugar é quase certo que haverá uma crise na economia internacional determinando uma queda acentuada nas exportações de muitos países, principalmente aqueles que têm nos Estados Unidos e na Europa seu mercado de bens.

Somente para se ter uma idéia da magnitude do problema, as economias ditas hoje em crise: Estados Unidos mais os PIIGGS, movimentavam, em termos financeiros, US$103.4 trilhões, algo em torno de 42,66% de toda a movimentação financeira internacional no ano de 2009.

Para terminar, faço uma observação: tudo isso teria sido evitado se depois da crise de 2008, os países tivessem primeiro adotado regras mais rígidas contra os países devedores contumazes; segundo, tivessem reformulado o FMI, criando a moeda internacional, o “bankor” de Lorde Keynes, fortalecendo a capacidade dessa Instituição de agir como o banco dos bancos no mercado financeiro internacional, e retirando dos Estados Unidos sua capacidade de influenciar (ou determinar?) as decisões do Fundo.

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    Pedro Vianna


    Sócio fundador da Econometrix e da TPJ Economistas Associados, com 40 anos de experiência na área da Ciência Econômica. Foi Diretor do Sistema BEC/BANDECE. Foi chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste-ETENE, do BNB. Foi Vice-Presidente da Associação de Bancos de Desenvolvimento - ABDE. Foi Professor Titular em Ciência Econômica da Universidade Federal do Ceará. Foi Professor Pesquisador do Seminar Für Allgemeine Betriebswirtschaftslehre, Beschaffung und Produktpolitik, e do Institut Für Finanzwissenschaft, ambos da Universidade de Colônia (Alemanha). Especialista nas áreas de Economia Internacional e Ciência Tributária.