A "Teologia" de opção pelos pobres



Introdução

Para a Igreja Católica, a teologia da libertação tem sido deturpada de seu verdadeiro sentido cristão original. Ao mesmo tempo, para alguns teólogos a Igreja tem olhado para o assunto de modo conservador e prejudicial a um movimento de vanguarda da modernização espiritual do cristianismo.

 

Nesta Crônica pretendo fazer algumas reflexões sobre esse tema que tem motivado muito mal-estar nos meios intelectuais latino-americanos, especialmente no Brasil onde residem renomados filósofos devotados ao estudo e difusão dessa mensagem doutrinária. É muito oportuna para o bem da Igreja que essas divergências sejam esclarecidas para que prevaleça entre os fiéis um espírito de paz e harmonia. Se bem tenha que ser breve, é bom que as pessoas interessadas nessa temática recorram às inúmeras fontes bibliográficas existentes para melhores esclarecimentos.

 

Foram o Concílio Vaticano II (1962) e a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (1968) que serviram de inspiração para a concepção da teologia da libertação, que seus idealizadores acreditam que servirá para a construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna. Segundo os exegetas desses eventos, a proposta do Evangelho sobre a opção preferencial pelos pobres entusiasmou o Papa Paulo VI (1963-1978) durante as reflexões levantadas pelos teólogos durante esses encontros ecumênicos.

 

De fato, Jesus Cristo deu início a sua missão terrena com as palavras do profeta Isaias: “O espírito do senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para por em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18-19).

 

Por volta de 1972, portanto, há quarente anos atrás, um grupo de sacerdotes da América Latina lançou uma espécie de manifesto, ou movimento, criticando as desigualdades e pobreza desse continente. O foco principal das críticas formuladas sobre essa situação é direcionado especificamente para o neoliberalismo econômico predominante nos países ocidentais. Alguns teólogos tomaram por base para essas conclusões o pensamento marxista, que defende a tese de que somente uma revolução completa do sistema terá resultado para sanar a exclusão social desses países subdesenvolvidos.

 

Uma Revisão das “Teologias da Libertação”

São essas as razões que motivaram uma cisão de pensamento sobre a Teologia da Libertação dentro da Igreja Católica. De fato, a Bíblia vê o homem como um ser criado por um Deus transcendente que tem um propósito definido para a nossa vida, mas Marx disse: “A verdadeira natureza do homem é a totalidade das relações sociais (1845). Ou seja, Karl Marx nega a existência de Deus e diz que cada indivíduo é produto da sociedade em que vive”. Além disso, ele nega que haja uma vida após a morte e que Deus é o ópio do povo.

 

A Igreja rejeita essa heresia, pois se alguém crê em Deus e na imortalidade da alma não pode, ao mesmo tempo, aceitar a teoria da evolução materialista da história como o caminho da solução para os problemas da sociedade. Para explicarem essa dicotomia, alguns teólogos se dizem marxistas-cristãos, mas os dois pensamentos são totalmente discordantes a respeito de Deus e da natureza humana.

 

Depois de estudos e avaliações criteriosas dessa situação pela Igreja, o Papa João Paulo II (1978-2005) questionou esse movimento que passou a fomentar a luta de classes e poderia distanciar os fiéis para visões relativistas do cristianismo. Sobre o assunto, Dom Jorge Enrique Jiménez Carvajal (arcebispo de Cartagena-Colômbia) destaca que, de fato, as formas de pobreza se multiplicam no mundo, inclusive nos países onde o modelo socialista fracassou. Assim é preciso criatividade para responder hoje em dia à “opção preferencial pelos pobres”, que deve ser em nome de Jesus Cristo e do Evangelho, e não baseado em princípios marxistas chamados científicos”.

 

No discurso inaugural da Quinta Conferência de Aparecida (Brasil, maio de 2007) o Papa Bento XVI fez a exortação aos bispos presentes dizendo que “devemos manter com renovado esforço pela nossa opção evangélica de preferência pelos pobres”. Ou seja, com apoio na verdadeira “Teologia da Libertação”, digo eu.

 

Com base nas Sagradas Escrituras e na teoria política de Karl Marx, sinto-me encorajado, como especialista em teoria econômica, a fazer algumas meditações complementares sobre o que vem sendo motivo de muitos comentários sobre a teologia da libertação. Especialmente agora que se comemoram os quarenta anos de sua concepção doutrinária e muito se fala sobre o assunto nos meios de comunicação.

 

Parece que esse assunto tornou-se um referencial para algumas pessoas classificarem os católicos de conservadores ou progressistas. Isto é, os que rejeitam a proposta da teologia da libertação são os conservadores, ou em lado oposto, os progressistas marxistas!

 

Na verdade, a opção preferencial pelos pobres nasceu com o cristianismo, na manjedoura de Belém, com o menino Jesus Cristo. A pobreza está também presente no antigo e no novo Testamento, nos seus aspectos espiritual e material. No Concílio Ecumênico Vaticano II, as questões de pobreza e desigualdades econômicas e sociais entre nações e pessoas foram profundamente discutidas e incorporadas aos documentos que emergiram desse evento religioso. Sem falar nos extraordinários documentos e Encíclicas papais, especialmente a partir da “Rerum Novarum” de Leão XIII, proclamada há mais de cem anos.

 

No entanto, foi a partir das preocupações com o mundo de hoje, oriundas do Concílio Vaticano II, como já comentado, que alguns teólogos passaram a estruturar uma estratégia em busca de soluções que permitissem uma libertação da miséria dos povos desse Continente. Destacaram-se nessa tarefa de propor uma “teologia dos pobres excluídos dos bens da terra”, o então franciscano Leonardo Boff e o padre peruano Gustavo Gutiérrez. É bom lembrar que as referencias sobre “libertação” citadas no Novo Testamento são pertinentes à superação dos pecados e não da saída da escravidão do Egito, conforme a hagiografia registra no livro do” Êxodo”.

 

Como se tornou conhecida, a Teologia da Libertação difundiu-se em outros países sobre diversas modalidades e concepções. De modo geral, contudo, duas correntes teológicas tomaram caminhos diferentes. Uma assumiu como fundamentação de suas ideias a Doutrina Social da Igreja, que tem a aprovação plena do Vaticano. Na América Latina, especialmente no Brasil e Peru, a opção instrumental é de ordem econômica fundamentada na ideologia marxista.

 

Em outras palavras, a Doutrina Social da Igreja tem como luz, a verdade; como fim, a justiça; e como força dinâmica, o amor ao próximo e o culto da liberdade e da dignidade humana.  Por sua vez, a ideologia marxista propõe a luta de classes, pois a causa da pobreza segundo essa concepção está nas classes burguesas dominantes. Para implantação desse  sistema, torna-se necessário a adoção da ditadura do proletariado, supressão da democracia e das liberdades individuais, e estatização da economia. O fundamental, no entanto, é que esta ideologia se baseia no materialismo histórico e no ateísmo.

 

As religiões são consideradas como alienação do povo e que entorpecem o progresso da sociedade. Este modelo, na verdade, nunca conseguiu ser implantado plenamente na prática, a não ser um de seus estágios, que foi o socialismo adotado pela União Soviética, Leste Europeu e, ainda, em alguns países isolados (China e Cuba), com os problemas que são conhecidos de todos. Na verdade, reconhece a Igreja que tanto o marxismo, como o liberalismo prometeu encontrar o caminho para a criação de estruturas justas. Mas, como é de nosso conhecimento, tal promessa se mostrou falsa. O sistema marxista, onde governou, deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas, além de uma penosa opressão das almas.   No ocidente, cresceu a distância  entre pobres e ricos e se manifestou uma inquietante degradação da dignidade pessoal com droga, álcool e miragens efémeras de felicidades.

 

Nesse contexto, a Teologia da Libertação, na América Latina, é uma fusão de propósitos cristãos para com os pobres com a ideologia marxista, incompatível com os Evangelhos e com a Igreja Católica. Para mim, é como se fosse uma “teologia” da junção do catolicismo  com o budismo  ou do judaísmo com o islamismo...  A teologia  da libertação cristã/marxista   é pura abstração.

 

Os idealizadores dessa nova “religião”, justificam-se  alegando que nada fizeram de errado, senão uma nova leitura da fé cristã à luz  das injustiças estruturais do capitalismo. O foco é que a libertação não deve ser do “Egito” ou do “pecado”, mas da  injustiça das classes sociais burguesas.  Alguns intelectuais brasileiros, mesmo assim, defendem esse movimento, dizendo tratar-se de esforço teológico mais original de toda a história da Igreja. De fato, há analistas que acreditam que alguns  teólogos deixam subtendido em seus brilhantes argumentos que Marx deve substituir Cristo numa simbiose perfeita de uma nova religião.

 

O papa João Paulo II, de saudosa memória,  foi informado pelos bispos  e leigos engajados do mundo inteiro sobre essas “Teologias” da Libertação  que estavam sendo ativadas através das pastorais das dioceses de toda a América Latina, Central e África. Em vista disso, o Santo Papa solicitou à Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano estudos sobre as diversas modalidades de Teologias da Libertação. Com base nesses documentos, e em reuniões e Sínodos de bispos, João Paulo II assinou, em 1984, um documento estabelecendo “instruções sobre alguns aspectos da teologia da libertação” para orientar a Igreja Católica sobre esse controvertido assunto.

 

A Opinião Final da Igreja

Por isso é que, quando da eleição do Bispo Joseph Ratzinger para Papa (Bento XVI) comentou-se que se tratava de um teólogo conservador, pois teria influenciado o Papa João Paulo II em condenar a Teologia da Libertação!

 

Na verdade, entretanto, tanto o saudoso Papa João Paulo II quanto o novo Papa Bento XVI aprovam a Opção Preferencial pelos  Pobres e a Teologia da Libertação, baseada na Doutrina Social da Igreja. No discurso em Puebla, João Paulo II lembrou que a Teologia da Libertação deve estar assentada em três pilares: “A verdade sobre Jesus Cristo, a verdade sobre a Igreja e a verdade sobre o homem”. Desse modo, não é possível juntar esses fundamentos com o ateísmo marxista que nega a espiritualidade  da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos individuais.

 

Em resumo, a posição da Igreja sobre esses assuntos foram bem expressos pelo Papa Bento XVI falando aos bispos da América Latina e do Caribe, fazendo uma reflexão teológica sobre o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica de seus povos: “A opção pelos pobres está implícita na fé cristã naquela em que Deus se fez pobre por nós, para que nos enriquecêssemos com sua pobreza”. Acrescenta o Papa: ”A vocação fundamental da Igreja é ser advogada da justiça e da verdade, educar nas virtudes individuais, políticas e formar as consciências a partir de valores éticos”. Os que não agem segundo esses princípios, não podem ser chamados cristãos.



    Pedro Sisnando


    Economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Atualmente é vice-presidente do Instituto do Ceará (Histórico,  Gegráfico e Antropológico) e da Academia de Ciências Sociais do Ceará, bem com sócio fundador da Academia Cearense de Ciências. É professor titular  (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da Universidade Federal do Ceará, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista  e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos(ETENE). No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.